HQ'S




Pode parecer estranho, à primeira vista, pelo menos ao lugar comum do ambiente acadêmico, que alguém dedique anos de sua vida a pesquisar e produzir textos sobre as histórias em quadrinhos dos super-heróis. E seria mesmo uma perda de tempo se considerarmos que tais histórias se restringem à função de entretenimento do grande público e, principalmente, do público infanto-juvenil. Mas isso não é bem assim, nem tampouco poderia nos parecer assim, pelo menos a considerar o quanto já se investiu na difusão dessas histórias, seja na sua forma impressa, clássica, seja na forma das mídias eletrônicas mais recentes. Há, seguramente, algo para além do imediato. Nesse algo mais, historicamente associado simplesmente ao imperialismo cultural Americano, existe mais profundidade do que acusam as leituras ideologicamente apressadas, embora elas tenham o mérito de desmascarar a farsa da neutralidade ou da inocência dos ensinamentos dos super-heróis. Pois foi considerando essa colaboração da leitura crítica como algo positivo e já muito explorado em trabalhos acadêmicos na Área da Educação, da Pedagogia em especial, que optei por voltar meu olhar mais para os aspectos ainda pouco explorados historicamente e que vão aparecendo aos poucos, desde o final da última década do século XX e no início do século XXI. Trata-se de uma leitura mais filosófica das HQ’s1 dos super-heróis. No meu caso isso não começou por diletantismo de estudante de filosofia ou por outra motivação meramente subjetiva ou de satisfação pessoal. Tudo remonta às dificuldades de efetivar algo de filosófico em aulas de filosofia para alunos da educação básica, que além de terem pouca leitura, vocabulário pobre e desinteresse geral por qualquer coisa que seja um pouco mais difícil e sem aplicabilidade imediata, possuem pouco interesse pela disciplina. Perguntei-me então sobre as minhas preferências pessoais nas mesmas condições deles e mesmo em faixas etárias anteriores, e depois de algumas alternativas não muito exitosas encontrei nas HQ’s uma forma de começar a conversa sobre questões filosóficas. E é certo que estabelecer essa relação não foi invenção minha. Vários autores já faziam a relação entre as atitudes, as falas e as ações dos personagens e algum tópico da filosofia, mormente a filosofia prática. Prova disso são as publicações sobre super-heróis e a filosofia que 1 Histórias em quadrinhos. 11 proliferaram nas duas últimas décadas. Até Os Simpsons mereceram um qualificado trabalho de dezenas de pesquisadores, que veio a público com o sugestivo título: Os Simpsons e a Filosofia (CONRAD ; IRWIN; SKOBLE, 2001). A experiência de sala de aula me desafiou a aprofundar mais a possível relação, não especificamente com a filosofia, mas de modo bem mais abrangente, a relação das HQ’s de super-heróis com a educação das crianças e adolescentes em geral e, de modo mais específico, com a formação da consciência moral. Mas para dar conta disso, eu precisava de apoio teórico, de uma referência clássica, para dar suporte acadêmico ao meu trabalho de pesquisa. Teria que encontrar uma forma de relacionar o caráter formador das HQ’s, sua influência na formação da consciência moral das crianças, na perspectiva de uma teoria ética clássica e que isso não fosse algo forçado. As lições das HQ’s teriam que encontrar ancoragem com ela de forma quase que espontânea. Daí a opção pela ‘Ética das Virtudes’, que o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) desenvolveu na filosofia prática, para o nosso caso, mais especificamente na Ética a Nicômaco. Essa investigação, com o devido aceite acadêmico, teve lugar no Programa de PósGraduação, Mestrado em Educação, do Unilasalle, e isso me trouxe uma série de exigências com as quais não tinha a devida familiaridade enquanto me dedicava à mesma temática em sala de aula e em seminários, painéis, workshops para o grande público e, inclusive, em meios de comunicação que atingem grandes públicos. Desde o início do mestrado comecei a me perguntar como é que essas HQ’s tiveram influência tão significativa e durante um tempo tão longo. Para pautar minha investigação adotei a hipótese de que a popularização das novas mídias ao longo do século XX, iniciando pelo cinema e consolidando-se pela Televisão e incrementando-se de modo intenso, no final do Século XX e início do XXI, com as novas Tecnologias da Informação e a ubiqüidade da ‘World Wide Web’, os super-heróis das histórias em quadrinhos se tornaram os ícones mais conhecidos e admirados em quase todas as culturas e camadas sociais da população planetária. O fenômeno é de tamanha envergadura que até mesmo os super-heróis mais antigos retornam continuamente com grande aceitação do público. A cada filme lançado, é uma multidão lotando as salas de cinema; as bancas lotadas de histórias em quadrinhos; e vários produtos sendo comercializados, com estampas destes super-heróis. Mas o que fazem estes personagens fantasiados para tornarem-se tão populares? O que os torna tão atraentes? Segundo William Irwin (2005), “um dos mais notáveis desenvolvimentos na cultura pop da atualidade é o forte ressurgimento dos super-heróis como ícone cultural e de 12 entretenimento” (p. 9), mas estas histórias em quadrinhos não são tão inocentes assim, como parecem, elas não trazem somente o entretenimento ao seu leitor, estas histórias introduzem e abordam de forma vivida as questões de suma importância enfrentadas pelos seres humanos ‘normais’, questões referentes à ética, à responsabilidade pessoal e social, à justiça, ao crime e ao castigo, à mente e às emoções humanas, à identidade pessoal, à alma, à noção de destino, ao sentido de nossa vida, ao que pensamos da ciência e da natureza, ao papel da fé na aspereza deste mundo, à importância da amizade, ao significado do amor, à natureza de uma família, às virtudes clássicas como coragem e muitos outros temas. Talvez seja, por este motivo que, muitos se prendem ao universo dos super-heróis e dão grande audiência a este tema. Foram os gregos os primeiros a entender o que gera audiência. Segundo Aristóteles, ao experimentar sentimentos fortes e acontecimentos trágicos (neste caso a trama nas telas ou lendo uma HQ´s), esperava-se que as pessoas purificassem as próprias emoções; assim faz o espectador/leitor refletir sobre os problemas centrais da condição humana, como a natureza do destino ou conflitos entre compaixão e a justiça. Os super-heróis estimulam nas crianças virtudes, como a coragem, enfrentando assim os desafios; vencer os medos; proteger os mais fracos; defender ideais e etc. Nesse cenário, eles representam os atributos que os humanos mais admiram em si próprios. Estes personagens são mais que apenas ídolos, são modelos morais2 . A criança ou adolescente, leitor de uma HQ’s, espectador de algum filme no cinema ou ainda uma animação na TV, tem o super-herói como modelo a ser seguido. Não saindo por aí saltando de prédios, fantasiado combatendo o crime, mas um modelo de justiça, de fazer o que é correto. Quanto à temática dessa pesquisa há que se observar de saída que essas histórias para crianças não são tão inocentes como aparentam ser, como se tivessem a única finalidade de proporcionar entretenimento aos leitores ou àqueles que os ‘consomem’ nos filmes feitos para o cinema e para a TV. As HQ’s tornaram-se uma referência na formação de opiniões porque de maneira sutil e perspicaz colocam em debate as questões fundamentais das relações sociais e os dilemas morais com os quais todos os seres humanos normais se defrontam no dia a dia. Elas abordam, na forma exemplar de vivência do personagem, as questões de suma importância enfrentadas pelos seres humanos, tais como a responsabilidade pessoal e social, a identidade 2 GFK Indicador, Estudo Exploratório do Imaginário Infantil. Agosto 2008 (pesquisa exclusiva para Mattel). 13 pessoal, a diferença; as questões atinentes, à alma, à mente e às emoções humanas, além de problemas bem concretos do cotidiano. A maneira de enfrentar e de solucionar tais questões e tais problemas é que remete à ética de Aristóteles. E isso é mesmo algo muito genial. Não o fato de as produtoras fazerem muito dinheiro aplicando a ‘Teoria das Virtudes’, mas a impressionante aceitação de tal teoria quando apresentada nessa forma fascinante do mundo das HQ’s. Tomemos o Super-Homem como exemplo e confrontemos o seu Ideal de existência com o da referida teoria. Aristóteles afirmou que a finalidade da vida humana é a felicidade e que ser feliz, é viver bem e agir bem, sendo que essa forma de vida não pode dispensar o conhecimento das coisas que a ela digam respeito e por isso que a felicidade tem a relação direta com sabedoria prática. A seu modo, o Super-Homem descobriu a mesma relação e a apresenta em suas decisões e ações. Aristóteles pressupõe que todos nós somos seres sociais, não como um acréscimo ao nosso ser, mas nos constituímos socialmente, intersubjetivamente. Se prestarmos atenção para esse aspecto antropológico, encontraremos em Batman a efetivação desta característica da concepção aristotélica, nos relacionamentos que o herói vai estabelecendo ao longo de sua existência. Peter Parker poderia optar por não usar seus poderes, poderia não ser o Homem-Aranha, mas ao fazer a sua escolha de ser super-herói, ele tem consciência de que o seu gesto é de enorme nobreza, que ultrapassa a esfera do dever imposto e numa verdadeira atitude de virtuosismo ele chama para si a responsabilidade, pois ‘com um grande poder vem uma grande responsabilidade’3 . No caso dos X-Men a influência está acompanhada de uma empatia e de um sentimento de identificação, pois os personagens adolescentes mutantes são, à primeira vista, repugnantes aos olhos dos humanos normais, que os temem e os odeiam, tratando-os como animais. Os mutantes, por sua vez, ao contrário dos humanos normais, não odeiam nem discriminam. Surpreendentemente, eles lutam para defender os humanos, pois assim estariam, na perspectiva da ética de Aristóteles, defendendo a causa mais nobre, que é condição para o bem individual de cada humano e de cada mutante: o bem comum! Além disso, é claro, os XMen fazem com que o público se depare com questões extremamente atuais do convívio humano ao colocarem a questão da diferença e da multiplicidade de modos de ser e de viver. O super-herói Batman passa a ideia de que podemos aprender a tornar-se um ser humano bom ou virtuoso e que isso inicia pelo esforço pessoal de seguir o modo de vida de uma pessoa moralmente exemplar, como ele o faz ao vestir a máscara e a capa e se coloca a 3 Ver LEE, Stan; DITKO, Steve; ROMITA, John. Spider-Man Collection. São Paulo: Abril/Marvel Comics, Mar. 1963, nº 1. p. 11. 14 lutar contra o crime. Ele próprio se apresenta como este exemplo de apreço à justiça e de conduta moral irrepreensível: numa expressão bem ao gosto de Aristóteles, um ser humano virtuoso. Ao modo da argumentação de Aristóteles na Ética a Nicômaco, Batman figura como um exemplo, como aquele herói para o qual sugere que se olhe como modelo de virtude e orientação prática para nos tornarmos também moralmente melhores (IRWIN, 2008, p. 229). Segundo Aristóteles é possível que se desenvolva o caráter do ser humano e isso é para ele a questão pedagógica central, uma vez que o desenvolvimento de habilidades e conhecimentos independentes da formação para a virtude possa fazer do ser humano um facínora inteligente, frio e calculista. Segundo ele, a aquisição da virtude se dá como a de qualquer outra habilidade ou atitude, isto é, mediante muito treinamento. Para Aristóteles, este ‘treinar’ mostra o caminho certo a seguir na ação para depois entender o porquê. A ação, a experiência da ação dentro da moralidade, precede o saber sobre as razões da ação moralmente boa. É na ação que o agente desenvolve as condições para entender as razões abstratas que legitimam e justificam a virtuosidade das próprias ações. Daí a importância fundamental do exemplo a ser seguido e, no caso da presente pesquisa, os super-heróis como exemplo de ação correta, justa, comedida, etc. Só na reflexão precedida pela ação e voltada novamente para ela é possível desenvolver por completo uma compreensão sobre o comportamento moral e realizar os experimentos éticos de pensamentos, de que falam deontologistas e consequencialistas. Somente nessa dialética do concreto ao abstrato e retornando ao concreto podem-se deduzir regras gerais legitimadas e pensar com eficácia a respeito dos resultados das ações. E se para nos tornarmos seres virtuosos necessitamos de bons exemplos a serem seguidos, é de se supor que os exemplos, que em outras tradições vinham de Jesus, dos mártires, dos revolucionários de carne e osso, possam vir hoje dos super-heróis das histórias em quadrinhos. Claro que isso acarreta diferenças no ponto de chegada porque o que uns e outros propõem não é o mesmo. Como noção geral acerca da aprendizagem da virtude, que depois de Piaget denominamos mais adequadamente de ‘formação da consciência moral’, pode-se mesmo fazer uma boa releitura da ética de Aristóteles para compreender esse caráter essencialmente ‘formador’ das HQ’s, especialmente porque o fazer do modo mais eficiente que existe para tal fim, fazem-no na forma de experimentação estética e, só num segundo momento, é que remetem para a instância reflexiva da consciência. E tal forma de procedimento está enunciada mesmo na tradição grega anterior e é retomada vigorosamente pelo estagirita. As histórias em quadrinhos e suas adaptações para os desenhos animados de TV e para o cinema não prejudicam a formação da criança e/ou adolescente. No confronto entre o ‘bem 15 e o mal’, temática recorrente nas HQ’s, não induz o leitor/espectador à violência, ao contrário, ensina que é possível resolver um conflito com dignidade moral. As HQ’s podem vir a ser instrumento pedagógico para a sala de aula, principalmente para o ensino filosófico, e o ensino da filosofia aristotélica, em sua ética das virtudes. Aristóteles foi o primeiro a mencionar a filosofia prática, sendo seu criador, onde abrange a política e a ética, com o intuito de atingir a areté (virtude), que vem a ser o tema central da Ética a Nicômaco. O saber prático distingue-se do saber teórico porque seu objetivo não é o conhecimento de uma realidade determinada, mas para Marcondes (1997), o estabelecimento das normas e critérios da boa forma de agir, da ação correta e eficaz (ibid., p. 76). A finalidade do homem é a ‘eudaimonia’(εύδαιµαυία), normalmente traduzido como ‘felicidade’, que uma atividade da alma designada com o nome de virtude. Ela não é inclinação nem mesmo uma aptidão inata, mas um hábito adquirido pelo hábito e espelhandose no exemplo dos outros. Para Aristóteles, a imitação é dotada de caráter criativo e ativo, constitutiva da natureza humana. A cada vivencia uma experiência, assim o ser humano tornase virtuoso, capaz de chegar a sua finalidade, a felicidade. Mas como o homem pode se tornar um ser humano bom? Segundo a teoria aristotélica, tornamo-nos homens bons através do hábito, pela prática e repetição, assim como tornamos bons na maioria das outras coisas. Segundo Aristóteles, aprendemos uma arte ou ofício fazendo as coisas que teremos que fazer quando a tivermos aprendido. É só através do hábito de construir posso me tornar um construtor, sendo justo, realizando atos justos (ARISTÓTELES, 2007, II, 1, 1103 b1 2-5). Não há outras maneiras de aprender qualquer coisa, segundo Aristóteles, a não ser praticando. Aprende-se ler, lendo; a escrever, escrevendo, e assim as demais coisas, praticar algum esporte, resolver questões matemáticas, e realizar atos justos, segundo a teoria ética aristotélica. Mas como poderei saber o que significa realizar atos justos? Para o filósofo Aristóteles, a resposta desta questão está na observação. Se quisermos saber o que é um ato justo, devemos observar pessoas sábias e prudentes (ibid., VI 1140 a1, 20-25). Uma pessoa justa é alguém que com regularidade e confiabilidade pratica ações justas. Mas só observar não é suficiente para desejarmos ser justos. É preciso imitá-las e praticar tais ações, somente assim, poderemos adquirir estas qualidades morais. Treinamento por repetição é fundamental para criarmos um caráter inclinado a agir conforme a moralidade. Mas por outro lado, aquele que já possui tal caráter, também possui uma importante tarefa, precisa treinar os outros para que sejam éticos, assim como ele, ao invés de somente ensinar sobre este em teoria. Para o homem aprender e agir corretamente, 16 necessitam ser repreendido por seus atos moralmente errados e quando seus atos forem moralmente bons, deve ser recompensado. Se desejarmos instilar determinadas virtudes específicas, assim como a coragem, devemos testar a pessoa que receberá tal caráter. Pois a coragem, segundo Aristóteles, nasce da atitude de enfrentar o perigo. Desse modo entende-se porque para Aristóteles a educação para a virtude é um modo de educar para o ‘viver bem’, que implica tanto a subjetividade quanto a esfera pública ou o âmbito político, da cidadania, sendo que esse aprendizado se dá na prática: aprende-se fazendo. Aí é que entram os super-heróis das histórias em quadrinhos como apoio pedagógico para o ensino de filosofia em geral e, especificamente, para que as crianças e adolescentes canalizem suas energias na direção de uma vida ética, virtuosa, mirando-se nos exemplos de adultos virtuosos e felizes. Para Nildo Viana (2005), podemos usar as HQ’s de super-heróis como novos modelos para a inspiração humana. As HQ’s, por muitas vezes criticada por corromper os jovens, na vida educacional, pode vir a ser um objeto pedagógico de aproximação das crianças e jovens à prática de leitura e na aquisição e discussão de noções sobre o que é o bem e o mal, o justo e o injusto, por exemplo. O mesmo autor reconhece que a TV transforma o literário em gestual com suas imagens rápidas. Hoje, uma imagem vale mais que mil palavras, mas esquecemos a importância da palavra, esta exprime o sentimento que ás vezes não se vê na imagem (LOVETRO, 1993, p. 65). Considerando que saber ler e escrever não é simplesmente o ato mecânico de juntar sílabas e emitir sons, Lovetro (1993) acredita que a complexa atividade da leitura exige do leitor a capacidade de interpretar o texto; de identificar e compreender o contexto no qual ele está inserido; de identificar ideias e signos nele contidos. Segundo Nogueira (2008), as histórias em quadrinhos auxiliam no desenvolvimento dessas habilidades porque têm uma linguagem de fácil compreensão para seus leitores. Os alunos não ofereceram resistência alguma em seu uso, pois são relacionadas a uma forma de entretenimento e lazer. Elas quando projetadas em sala de aula, prendem mais a atenção dos alunos do que outros instrumentos. Por ser uma atividade prazerosa e que aparentemente está dissociada das tarefas escolares, tal leitura HQ’s tem por objetivo promover a interdisciplinaridade entre os diversos conteúdos curriculares, ajudar a promover a prática da leitura e aproximar as crianças e jovens de outros tipos de arte, como as artes plásticas, o teatro e a música, além, é claro, de serem importantes no processo de alfabetização (NOGUEIRA, 2008). Para o estagirita Aristóteles, só aprendermos a fazer as coisas, praticando-as, e isso se aplica tanto à aprendizagem da leitura quanto à da virtude (ARISTÓTELES, 2007, II, 1, 1103 b1 2-5). 17 As HQ’s têm enorme potencial pedagógico. Até pouco tempo só se juntavam HQ’s e os livros quando se colocava os quadrinhos dentro do livro e se fingia estar estudando4 . Hoje este distanciamento entre quadrinhos e a educação se estreitou, conforme Calazans (2004, p.10), HQ’s são um divertimento com o qual os jovens e adolescentes estão familiarizados e que prendem sua atenção pelo prazer, sendo seu primeiro contato com linguagens plásticas desenhadas e com narrativas, iniciando seu contato com a linguagem cinematográfica e a literatura; podem ser empregadas como estímulo à aprendizagem trazendo o conteúdo programático à realidade palpável do aluno (ibid., p. 33). O fascínio que os personagens exercem, figurando como exemplos heróicos, e tomando a ética aristotélica das virtudes como referência teórica, pretende-se apresentar alguns super-heróis, e mostrar como cada um deles apresenta um aspecto importante da referida ética. Segundo Reblin (2008), na leitura de HQ’s dos super-heróis X-men, os leitores podem adquirir um conhecimento muito grande sobre preconceito e discriminação porque estes super-heróis defendem o exercício da tolerância, e esta “é a chave para a convivência pacifica entre seres humanos e mutantes e que um dos caminhos para o exercício da tolerância iniciase a partir da educação, (...) é um constante aprender a viver, por isso Charles Xavier, cria o Instituto Xavier para jovens super dotados” (ibid., p. 87). Os X-men são preparados para defender a humanidade dos ataques de outros mutantes, são preparados para defender aqueles que tanto os temem e os odeiam. A escola de Charles Xavier é, por assim dizer, uma aplicação da concepção aristotélica de educação moral, pois segundo o estagirita é a educação que pode tornar alguém um bom indivíduo, ‘mediante treinamento apropriado que o habilite a viver segundo hábitos virtuosos e nada fazer de vil seja voluntária ou involuntariamente, então isso será assegurado se as vidas humanas forem reguladas por uma certa inteligência e um sistema correto investido do poder de aplicar sanções adequadas’ (ARISTÓTELES, 2007, X, 1180 a1, 14-18). O que faz os X-men respeitarem tanto os seres humanos que os rejeitam? O que esses a se engajarem por uma luta pacífica entre humanos e mutantes? Enfim por que os X-men são bons? Uma possibilidade é que eles são motivados a serem bons por uma convicção de que esse tipo de vida é o meio mais eficaz de garantir a tolerância e aceitação dos outros. Segundo essa interpretação, o compromisso deles com o bem é o resultado de um cálculo estratégico quanto à política será mais útil para garantir – lhes o fim desejado (IRWIN, 2005, p. 164-165). 4 Prefácio de Fernando Gonsales, Carvalho, 2006. 18 Mas os seres humanos, não reagem muito bem, com os atos dos super-heróis X-men. Embora os X–men desejem e esperam serem aceitos na sociedade, seu compromisso com o bem não parece se basear em uma expectativa de que isso ocorra. Batman parece ser o exemplo de um bom ser humano, um ser virtuoso, daquilo que Aristóteles tinha em mente quando sugeriu para que olhássemos para as pessoas virtuosas a fim de nos orientarmos sobre como tornamos moralmente melhores. Segundo Irwin (2008), para muitas pessoas Batman é um ser humano exemplar, tende atitude moral inserida em seus atos, por ser corajoso e inteligente. Ele “tem um forte senso de justiça e mantém o autocontrole, mesmo em meio a uma luta. Por outro lado, ele está sempre disposto a sacrificar sua própria vida, para fazer do mundo um lugar melhor” (ibid., p.229). Heróis como Asa Noturna, Robin e outros super-heróis, junto com o Comissário Gordon, seguem a sugestão de Aristóteles, escolheram um modelo de herói como o ideal, escolheram imitar as ações e o comportamento de Batman, a fim de tornarem-se virtuosos como ele. Bruce Wayne (o alter ego de Batman) sabe que sozinho não terá como alcançar seu objetivo de tornar Gotham City um lugar melhor para se viver, mas sabe que como Batman pode vir a ser o exemplo para outros, tornando-se assim o símbolo da virtude, do ser moralmente incorruptível, o ser ético. O Homem-Aranha, assim como outros super-heróis já citados, tem na filosofia da ética das virtudes de Aristóteles, sua motivação heróica.. Este super-herói é um ser corajoso, que pratica a mediania. A coragem segundo Aristóteles, é a mediania tocante ao medo e à autoconfiança, e o super-herói Homem-Aranha, possui esta virtude aristotélica. Mas para o estagirita, não se pensa que a coragem esteja relacionada com todas essas coisas, uma vez que há alguns males que é certo temer e vil não temer, do que é exemplo à desonra ou ignomínia. Aquele que teme a desonra é um homem honrado, detentor de um devido senso de pudor (ARISTÓTELES,2007, III, 1115 a1, 11-14). Assim como o super-herói Homem-Aranha, ele é um exemplo para os cidadãos de Nova Iorque5 ; vivendo a excelência moral na qualidade de super-herói. Também os X-men conhecem o bem e o praticam. Mas o Homem-Aranha, diferente dos outros super-heróis é um adolescente, o que implicaria, segundo Aristóteles, numa condição restritiva, porque, para que um indivíduo possa julgar um assunto particular, é preciso que ele tenha sido instruído nesse assunto, é necessário que tenha recebido uma educação completa. Os jovens não estão aptos 5 Cidade onde baseia-se a história do Homem – Aranha. 19 para os estudos da política, porque carecem de experiência de vida e de conduta (ARISTÓTELES, 2007, I, 1095 a1, 1-04). Então, tendo como referência prática e de conteúdo formativo as ações virtuosas dos super-heróis das HQ’s, e considerando o modo de formação da consciência moral das crianças de dos adolescentes segundo teorias atuais de desenvolvimento humano, pretende-se fazer essa relação entre o caráter formativo de tais ações e a teoria das virtudes e da aquisição do caráter moral na perspectiva da ética de Aristóteles. 20 1. SOBRE A UTILIZAÇÃO E A FUNÇÃ
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